AS ARTES POPULARES

Fortemente enraizada na cultura e no modo de viver das pequenas comunidades nas quais tem origem, a arte popular exprime os vários universos subjetivos do artista – suas experiências de vida únicas, seus anseios nem sempre dizíveis facilmente e, em especial, o impulso misterioso que o faz um transformador do mundo.

Estamos falando de pessoas do povo, em geral com poucos recursos econômicos ou sem precisão destes, que vivem no interior do país, na periferia dos grandes centros urbanos, na cidade sem rosto pré-fabricado, e para quem a palavra arte significa, mais do que qualquer outra coisa, trabalho. 

O artista popular costuma ser autodidata, sem contato com a arte pretensamente erudita. Ele retira da tradição as técnicas que precisa para realizar seu trabalho. Pode inclusive criar recursos próprios para solucionar problemas em suas peças, normalmente encomendadas e ditadas pela sociedade na qual se insere, o que acaba por determinar tanto a temática como, em alguns casos, a própria forma que o trabalho deve assumir. A personalização da tradição de um certo ciclo social onde vive o artista pode, portanto, gerar obras de grande valor artístico. Ressaltando o domínio artesanal e sua capacidade ímpar para executar as obras.

Através do uso espontâneo de materiais diversos – como ferro, folha de flandres, barro, madeira, areia, papel machê, palha, tecidos, penas ou couro – o artista popular consegue nos mostrar, seja por meio da criação de seres fantásticos ou de simples cenas do cotidiano, os principais temas da vida social e do imaginário. Tudo numa linguagem em que o bom humor, a perspicácia, a determinação e a crítica social têm lugar de destaque, estabelecendo uma poderosíssima ferramenta de comunicação.

A arte que flerta sem grandes pudores proibitivos com os costumes, os festejos, os mitos, a religião e as instâncias psíquicas do ser humano vem de sol a sol representando não só os arquétipos do homem comum, mas também um tipo de pensamento e filosofia de vida de uma significativa parcela do povo brasileiro.


CONTEXTO HISTÓRICO

Existe, nesta região que compreende a Cidade da Bahia de Todos os Santos e o seu recôncavo, uma cultura singular, cantada e recontada por vários artistas e estudiosos. Ao mesmo tempo que é uma civilização tropical, de influências étnicas diversas, é ponto de encontro de sociedades africanas oriundas de muitos lugares daquele continente, chegadas aqui durante quase 400 anos, construindo ao longo do tempo um espetacular cenário de vasta cultura, daí a alusão à Roma Negra.

Desses povos, tiveram singular importância os que provieram da região Yorubá (Benin e Nigéria), principalmente durante os séculos XVIII e XIX, tendo como ponto fundamental dessa conexão transatlântica o intercâmbio em razão do comércio escravo, do fumo e de produtos usados nos cultos religiosos, o que acabou por criar um íntimo estreitamento entre a costa africana e a Bahia.

É essa ligação contínua que vai, junto ao processo de formação dos terreiros onde manifestações da cultura Yorubá foram acrescidas a outros cultos de africanos já estabelecidos há mais tempo na Bahia – como os Bantos por exemplo – e a sincretismos católicos, forjar a origem de uma mitologia essencialmente plural e, por outro lado, uma plasticidade inconfundível – a expressividade baiana, o temperamento particular de uma população inteira, expressões de uma África reinventada.


CONCEITO

Instigar o pensamento dos fazeres populares não apenas como uma atividade folclórica e vernacular, mas também como um filtro universal que leva o homem a expressar com sua arte, através das tecnologias disponíveis, todo entorno misterioso que o cerca, registrando em obras a história corrente ao mesmo tempo que a cutuca e altera. Não se pretende avaliar toda essa produção simplesmente como arte popular, um rótulo restrito, e sim tão somente como arte. Em tempo, a arte bruta ou contemporânea, ou melhor, justamente a riqueza de suas fronteiras.

Valorizar, incluir e representar o trabalho do artista popular tendo em vista a importância que este deve ter no mercado de artes brasileiro, a despeito de modelos estéticos preestabelecidos ou circuitos acadêmicos, e mais compromissado, por outro lado, com a essência espontânea que o move para transformar matéria simples em ressignificados.

Propiciando o rico encontro com esses artistas singulares, que mergulhados em uma cultura atávica atravessam colocações e discussões da arte contemporânea, apresentamos um acervo referente às expressões populares afro-baianas. Estimulando a pesquisa e divulgando essa arte intrinsecamente ligada ao culto dos Orixás, Voduns e Nkisis. Tentar alcançar com mãos brandas tal baianidade e buscar entrever nessa produção linguagens perenes de uma cultura profunda são a base de nossa iniciativa. Preferimos, pois, pensar a arte flanando entre categorias. Fazendo surgir um apreciar diferente onde a assinatura esteja ligada não só ao artista, mas às personalidades coletivas de vozes ancestrais.


QUEM SOMOS

Às vezes Paulo Conceição Rocha, outras vezes apenas Lito Conceição, e em outras Paulo Roberto Luz Conceição Teles da Rocha, esse músico, escritor, editor e empresário não se cansa de trocar de nome e brincar com os vários ofícios em arte. Deveras atuante no cenário cultural baiano, acredita piamente que é possível ser alguém bem simples sem necessariamente escorar-se na mesmice de sempre.

Gustavo Arruda, meio paulista, meio baiano, é formado em Artes Plásticas. Lançou os livros de poesia "Dispara" e "Gyro", entre outros. Descansa os olhos quandomente na Bahia, Baía de Todos os Santos.

Nascida da água e do fogo, a tempestade é o poder manifesto de Iansã, rainha dos raios, das ventanias, do tempo que se fecha sem chover. Iansã, ou Oyá, é uma guerreira por vocação, sabe ir à luta e defender o que é seu, a batalha do dia-a-dia é a sua felicidade. Ela sabe conquistar, seja no fervor das guerras, seja na arte do amor. Mostra o seu amor e a sua alegria contagiantes na mesma proporção que exterioriza a sua raiva, o seu ódio. Dessa forma, passou a identificar-se muito mais com todas as atividades relacionadas com o homem, que são desenvolvidas fora do lar. Portanto não aprecia os afazeres domésticos, rejeitando o papel feminino tradicional. Iansã é a mulher que acorda de manhã, beija os filhos e sai em busca do sustento.


SOBRE OYÁ

Eis uma série de Oriki de Oyá e em seguida algumas lendas que versam sobre sua coragem e vivacidade extrema.

1 – Mulher de vestes vistosas
2 – Minha mãe da roupa de fogo
3 – Nada de mentiras pra ti
4 – Mulher neblina no ar
5 – Oyá, leopardo que come pimenta crua
6 – Onde ela está, o fogo aflora
7 – Mulher que olha como se quebrasse cabaças
8 – Fêmea que flana
9 – Epa, Oyá dos nove partos, eu te saúdo
10- Ventania que pariu o fogo
11- Beleza preta no ventre do vento
12- Ela dorme dançando
13- Quem procura Oyá no vaivém do mercado vai e vê que ela anda de quitanda em quitanda mascando nacos de Obí e vibrando em vermelho. Oyá, brasa do bata, lança de fogo no jogo da dança.

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Oyá vivia com Ogum antes de tornar-se esposa de Xangô. Vivia, então, com o ferreiro ajudando-o em seu ofício, principalmente manejando o fole para atear fogo à forja. Certa vez Ogum presenteou Oyá com uma varinha de ferro que possuía o poder de dividir em sete partes os homens e em nove partes as mulheres, bastando tocá-la no corpo de um deles. Ogum dividia assim com Oyá o poder de manejar essa arma nas guerras.

Nessa mesma vila vivia Xangô, simpático e sedutor que, vez por outra, ia à casa de Ogum apreciar não só o trabalho do ferreiro, mas também para arriscar olhares para Oyá. Xangô impressionava muito Oyá, principalmente por seu olhar majestático.

Um dia Oyá fugiu com Xangô fazendo com que Ogum saísse numa busca alucinante pelos dois. Ao se encontrarem, Ogum e Oyá tocaram-se ao mesmo tempo com a varinha e o encanto aconteceu. Ogum dividiu-se em sete partes donde recebeu o nome de Ogum Mejê, e Oyá foi dividida em nove pedaços, sendo conhecida como Oyá Mensan. Daí se originou o nome Iansã, a mãe que se transformou em nove. Ou, para outras vertentes, a mãe dos nove filhos.

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Certa vez houve uma festa com todas as divindades presentes. Omulu-Obaluaê chegou vestindo seu capucho de palha. Ninguém o podia reconhecer sob o disfarce e nenhuma mulher quis dançar com ele. Só Oyá, corajosa, atirou-se na dança com o Senhor da Terra. Tanto girava Oyá na sua dança que provocava vento. E o vento de Oyá levantou as palhas e descobriu o corpo de Obaluaê. Para surpresa geral, era um belo homem. O povo o aclamou por sua beleza.

Obaluaê ficou mais do que contente com a festa, ficou grato, e em recompensa, dividiu com ela o seu reino. Fez de Oyá a rainha dos espíritos dos mortos. Rainha que é Oyá Igbalé, a condutora dos eguns.

Oyá então dançou e dançou de alegria para mostrar a todos seu poder sobre os mortos. Quando ela dançava, agitava no ar o iruquerê, o espanta-mosca com que afasta os eguns para o outro mundo.

Rainha Oyá Igbalé, a condutora dos espíritos.

Rainha que foi sempre a grande paixão de Omulu.

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Osogyian estava em guerra. Mas a guerra não acabava nunca, tão poucas eram as armas para guerrear. Ogum fazia as armas, mas fazia lentamente. Osogyian pediu a seu amigo Ogum urgência, mas o ferreiro já fazia o possível. O ferro era muito demorado para se forjar e cada ferramenta nova tardava como o tempo. Tanto reclamou Osogyian que Oyá, esposa do ferreiro, resolveu ajudar Ogum a apressar a fabricação.

Oyá se pôs a soprar o fogo da forja de Ogum e seu sopro avivava intensamente o fogo. E o fogo aumentado de calor derretia o ferro mais rapidamente. E logo Ogum pôde fazer muitas armas. E com as armas Osogyian venceu a guerra. Osogyian veio então agradecer Ogum. E na casa de Ogum enamorou-se de Oyá.

Um dia fugiram Osogyian e Oyá, deixando Ogum enfurecido e sua forja fria. Quando mais tarde Osogyian voltou à guerra e quando precisou de armas muito urgentemente, Oyá teve que voltar a avivar a forja. E lá ao longe da casa de Osogyian, onde vivia agora, Oyá soprava em direção à forja de Ogum. E seu sopro atravessava toda a terra que separava a cidade de Osogyian da de Ogum.

Seu sopro cruzava os ares e arrastava consigo pó, folhas e tudo o mais pelo caminho, até chegar às chamas com furor. E o povo se acostumou com o sopro de Oyá cruzando os ares e logo o chamou de vento. E quanto mais a guerra era terrível e mais urgia a fabricação das armas, mais forte soprava Oyá a forja de Ogum. Tão forte que às vezes destruía tudo no caminho, levando casas, arrancando árvores, arrasando cidades e aldeias.

O povo reconhecia o sopro destrutivo de Oyá. E o povo chamava a isso tempestade.

 

webgrafia
popular.art.br; 
ocandomble.wordpress.com;
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